• Thais Bere

A "Cultura do Cancelamento" de hoje é a "Dor de Cotovelo" de ontem


Crédito da imagem: @co_phy


Se você usa as redes sociais com certa frequência, já deve ter ouvido falar na Cultura do Cancelamento. A expressão foi basante usada durante em 2019 e, na minha opinião, veio com ainda mais força este ano. Porém, tenho notado que as pessoas passaram a usá-la sempre que não concordam com algo e neste texto vou explicar porque acho isso tão perigoso.


Vamos lá. O termo por si só já é bastante forte. Cancelar alguém ou alguma marca significa, basicamente, que você não quer que ela tenha mais voz, que ela perca o direito de se expressar. No português claro: o famoso boicote.


Tudo começou no primeiro semestre de 2019, com uma briga entre os Youtubers Tati Westbrook e James Charles, envolvendo traição, barraco, xingamento em público e... adivinhem? Cancelamento. Isso mesmo. Um deles sugeriu que seus seguidores "cancelassem" (deixassem de seguir, fizessem um boicote virtual) o outro e este foi o começo de tudo.


É verdade que, após este episódio, a expressão foi usada em alguns casos bem importantes de assédios ou abusos, em que nós mulheres nos juntamos para "cancelar" os agressores. Tendo em vista que a sociedade (infelizmente) ainda é extremamente machista, nós devemos nos unir e fortalecer umas as outras.


Também é verdade que as pessoas começaram a usar critérios duvidosos para cancelar alguém/ alguma marca e eu vou citar dois exemplos:


1) Quando a Avon anunciou que não faz mais testes em animais em nenhum país do mundo - inclusive na China


Essa deveria ser uma notícia maravilhosa a ser comemorada, certo? Pra conseguir o feito inclusive na China, a Avon teve que tirar alguns produtos de circulação, já que o governo de lá exige que todas as marcas testem determinados produtos em animais (me corrijam se eu estiver errada!).


Acontece que, também na China, caso algum consumidor reclame de irritação ou alergia, o Governo exige que sejam feitos testes em animais - isso tudo APÓS a produção e comercialização do produto. Ou seja, uma decisão que realmente não depende da marca, mas do Governo Chinês.


Enfim, a partir do post anunciando a novidade, a marca recebeu centenas de críticas e logo a hashtag #AvonCancelada ganhou destaque. Li alguns comentários do tipo "por que não param de vender de vez por lá?". Amigos, sinto lhes dizer, mas as empresas foram criadas pra dar lucro (e isso não deveria ser ruim! Já ouviram falar no Capitalismo Consciente? #ficaadica).


2) BBB. Primeiramente, quando resolveram cancelar o Pétrix e Hadson (a meu ver, com razão) e passar a mão na cabeça do Pyong, e agora, tentando cancelar a Marcela por ter se envolvido com um dos participantes.


Tenho que confessar que não acompanho o BBB - tampouco esta edição. Muita coisa chega até mim nas Redes Sociais e procurei algumas polêmicas no Google pra tentar entendê-las melhor e formar uma opinião. Ponto.


Quando aconteceu o caso de assédio, com o Pétrix, e machismo, com o Hadson, os participantes cancelados eram o assunto mais falado em todos os canais de fofoca e nos perfis de famosos que estão acompanhando o reality. Eu, como mulher, achei mais que justo os dois cancelamentos.


O ponto é que duas semanas depois, o "queridinho" da edição teve atitudes bem parecidas com os dois primeiros e o público simplesmente deixou pra lá. "Ah, mas ele tava bêbado, tadinho!". "Sóbrio ele não faz esse tipo de coisa" - e na primeira oportunidade uma mulher que falou besteira bêbada foi eliminada. Entendem a diferença?


Sobre a Marcela: até a terceira semana (acho eu) do programa ela era a #fadasensata. Todas as mulheres queriam tê-la como amiga. Após seu envolvimento com o Daniel, a hashtag #MarcelaCancelada já começou a aparecer nas Redes. E tudo isso por quê?


Vocês podem até falar que ela começou a ignorar a amiga ou algo do tipo, mas sejamos sinceros, estão querendo cancelá-la pelo simples fato dela não ter seguido o script - continuado como a fada sensata, apoiando a Gizelly e falando assuntos sobre empoderamento feminino de vez em quando.


Até que ponto estamos usando a Cultura do Cancelamento para causas reais, que merecem a devida importância, e até que ponto estamos com dor de cotovelo porque pessoas/ marcas que não gostamos ou ideias que não estamos de acordo estão em destaque e queremos ofuscá-las? Sei que é forte pensar por este ponto, mas pensem bem! Cancelar uma pessoa pelo simples fato dela ter falado uma coisa que você não gosta não é justificativa, sério.


Seguir o "efeito manada", cancelando tudo e todos, também não é a saída. Antes de sair por aí cancelando, acho que devemos nos perguntar:


"Essa pessoa/marca falou apenas algo que eu não concordo ou ela feriu a existência de alguém?"


Se a resposta for "apenas algo que não concordo". Não precisam cancelar. Basta deixar de seguir ou interagir com ela.


Se a resposta for "ela feriu a existência de alguém", tentem entender melhor o que de fato aconteceu. Se ela de fato feriu a existência de alguém. Pesquisem. Busquem maiores informações. CONVERSEM com as pessoas - inclusive e principalmente com aqueles que pensam diferente de vocês.


Eu aposto que em 90% dos casos o "cancelamento" não fará sentido!

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